O Maior Desafio de Ser Pai
Se o trato diário com amigos e colegas
já exige uma boa dose de atenção, compreensão
e respeito, o bom convívio entre pais e filhos exige ainda mais.
A intimidade e o contato constante entre membros de uma mesma família
acalma e acalenta a relação, mas também expõe
aspectos frágeis e humanos da nossa personalidade. Ser pai não
é fácil, principalmente diante da vigilância de
uma sociedade que cobra estabilidade e perfeição de um
personagem que é, essencialmente, humano.
Este é um aspecto fundamental: acima de assumir o papel de pai,
ser você mesmo na relação. Não adianta se
obrigar a cumprir um padrão, assumir uma conduta que não
corresponda à realidade interior, suas próprias crenças
e valores. Afinal, filhos necessitam de uma referência, do exemplo
dos pais. Assim, é necessário uma boa dose de autoconhecimento,
pois bons exemplos provêm de boas atitudes. Não adianta
apontar um caminho ou impor um limite se não agirmos de forma
coerente. Aquela história do "faça o que eu digo,
mas não faça o que eu faço" é um desastre.
Ora, ninguém suporta incoerência e ambigüidade diante
de um contato que deveria ser, no mínimo, autêntico.
Assim, além de sermos coerentes, devemos nivelar a relação.
Acima de ser pai ou filho, ambos são indivíduos únicos
repletos de potenciais próprios. É claro que o adulto
tem mais experiência e compreende melhor aspectos ainda não
acessíveis a uma criança ou adolescente. Mas quem faz
questão de tornar evidente esta diferença, discriminando
a capacidade do próprio filho em crescer e desenvolver-se, sustentará
uma relação de insegurança, contribuindo para o
aparecimento de sentimentos de medo, submissão ou rebeldia.
A aplicação de limites é também em muito
necessária. Da mesma forma que atenção, amor e
incentivo são atitudes vitais para o desenvolvimento da personalidade,
a noção de limite é o complemento para o equilíbrio.
Muita gente desenvolve dificuldades ao longo da vida exatamente pela
falta ou excesso de limites. Ora, não precisamos esconder a realidade,
que às vezes é dura, ao próprio filho. Limites
são necessários e devem ser aplicados com sinceridade.
Infelizmente, há pais que confundem as coisas, acreditam que
estabelecer limites é ser duro. Bem, podemos ser firmes, não
necessariamente duros. Afinal, atenção e carinho são
necessários até nas situações mais concretas.
É importante também estar atento para não projetar
no filho nossas próprias frustrações ou anseios.
Muitos pais buscam realização pessoal no sucesso dos filhos.
Gostariam que fossem seus seguidores, que realizassem tudo o que eles
próprios não conseguiram ao longo da vida. Enchem-se de
expectativas e podem até influenciar de forma negativa no desenvolvimento
de maturidade e autonomia pessoal.
Ser pai é um eterno aprender. O importante é ter sabedoria
e coragem para superar as dificuldades e tentar melhorar. Afinal, ser
bom pai é ser um bom homem, é conhecer-se a si mesmo.
É acreditar na própria capacidade e amadurecer de uma
forma sincera. É formar-se como pessoa, saber apreciar novos
encontros e relações. É ser humano, compreendendo
os limites que a vida nos coloca, mas nunca fugindo das oportunidades
que ela nos traz.
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Publicado no "Estado de Minas", 02/02/98 - http://www.castellani.psc.br
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